A Rua das Cacimbas, no bairro Amapá, é simbólica não somente para a história de Marabá. Foi ali, debaixo de uma mangueira, que o trabalho social feito pela empresária Márcia Paz começou. Veio do estado do Mato Grosso, na década de 1980 e estabeleceu-se com a família nesse bairro, onde viu de perto muita desigualdade social.
“Minha filha era pequena e eu sempre saía pra passear com ela pelo bairro. Eu morava ali perto do Hotel Del Príncipe e quando descia a ladeira já era outra realidade: as crianças ali no contêiner, mexendo no lixo. Eu fiquei pensando ‘o que eu posso fazer? Se fosse eu, ali, naquela situação, mexendo naqueles contêineres, andando daquele jeito, sem ninguém por perto de mim, me cuidando, o que eu queria que alguém fizesse por mim?”, recorda Márcia.
Tocada pela situação das crianças carentes que encontrava em suas caminhadas, Márcia decidiu agir. Inicialmente, ela reuniu crianças aos sábados para contar histórias bíblicas e distribuir lanches. O projeto, que começou debaixo de uma mangueira na Rua das Cacimbas, rapidamente cresceu, levando Márcia a alugar um galpão no bairro Novo Horizonte para acomodar as mais de 400 crianças que participavam semanalmente.
“Foi quando eu aluguei uma casa ali em cima e nós começamos o projeto da Escola de Música. Eu pedi ajuda para a professora Júlia Lino, que agora é presidente do Instituto Servi. Nós pedimos ajuda para a Fundação Casa da Cultura porque eu só sei trabalhar com parceria. Então, todas aquelas pessoas que chegavam perto de mim, eu já falava assim: você quer ser meu parceiro? Eu era a mulher que mais pedia em Marabá. E assim eu aprendi a pedir, mas não era para mim, era para as crianças”.
Com o tempo, a voluntária percebeu a necessidade de oferecer mais do que recreação. Contando com o apoio do esposo, de amigos e de empresas, pois no início dos anos 2000 funcionavam em Marabá ao todo 12 siderúrgicas, Márcia implantou no bairro Amapá a Fundação de Assistência à Crianças e Adolescentes (Funcad), onde desde 2002 são oferecidas até hoje aulas de música, futebol, vôlei, informática e outros cursos. A Funcad também formou uma banda que se apresentava em eventos nas siderúrgicas locais, garantindo patrocínios e apoio para o projeto.
“E essa banda era muito famosa na época. Tinha a banda da Casa da Cultura e a nossa banda, que foi a primeira de Marabá a fazer uma apresentação na Assembleia Paraense. Hoje em dia são professores, inclusive as filhas da professora Júlia, uma está terminando o doutorado em Música, a outra já fez mestrado. Então, dali surgiam muitos professores que fazem parte da Casa da Cultura e de outros projetos. E eu sempre deixava eles na frente porque o meu trabalho era só ficar na retaguarda, não deixar faltar nada para eles”, ressalta Márcia.
Lembrando com saudosismo daquela época, a voluntária relata que chegou o momento que sentiu o peso daquela rotina agitada e cheia de responsabilidades, por isso decidiu doar a Funcad para a Igreja Nova Aliança, que mantém o projeto funcionando até hoje. Mas, depois de 38 anos dedicada ao trabalho social Márcia não conhece outra forma de compartilhar a vida, senão ajudando o próximo, por isso desde 2018 ela trabalha ajudando o Instituto Sonho e Esperança de Restituir Vidas (Servi).
Localizado também no bairro Amapá, o Instituto Servi atende 360 crianças com aulas de Jiu-jitsu, balé, violão e flauta doce. Além do curso de cabelereiro para jovens e adultos, também são oferecidos atendimentos de saúde com as seguintes especialidades: odontologia, ginecologia, cardiologia, neurologia, psicologia, neuro psicopedagogia, otorrinolaringologia e pediatria. Com o Projeto Viver, 150 jovens recebem acompanhamento e aconselhamento sobre os prejuízos do uso e abuso de drogas.
“O bairro Amapá foi muito estigmatizado, mas eu digo que é um lugar muito abençoado. Nós temos uma fundação, um instituto, além do Emaús que faz um trabalho muito bonito também. A Bíblia diz: aquele que planta, colhe. E Deus foi abrindo as portas para o meu esposo. Ele é um grande empresário hoje em dia, mas porque ele sempre estava nos ajudando. E meus filhos são abençoados porque eles não só viram, mas me ajudaram desde pequenos. Eu acho que o trabalho flui mais quando você ama o que faz e quando você quer ajudar o próximo”, enfatiza Márcia.
Reabilitação de dependentes químicos
Outra figura notável, para o trabalho social realizado nesses 112 anos de Marabá, é o Padre Mário José Maestri, que chegou em Marabá em 2006 para assumir a paróquia de São Francisco, onde exerceu a função de pároco por sete anos. Encantado pela cidade e pela colaboração dos paroquianos, ele iniciou um trabalho de reabilitação de dependentes químicos na Chácara Emaús, mantida pela Igreja Católica. O projeto nasceu de um sentimento de compaixão ao ver dependentes químicos deitados na porta da igreja.
“Tudo nasceu de uma frase que eu falei debaixo da torre da Igreja de São Francisco, num domingo de manhã, quando era costume a gente abrir as portas da igreja para a missa e sempre tínhamos lá um grupo de usuários deitados em frente a igreja. E nesse domingo tinha alguns fiéis lá e eu disse: poxa, será que não podemos fazer nada por essa gente?”, relembra o padre.
Um dos empresários marabaenses mais tradicionais soube dessa preocupação do padre Mário e decidiu ajudar no trabalho de acolhimento e reabilitação dos dependentes químicos.
“E isso chegou aos ouvidos do Leonildo Rocha, hoje de grande saudade. Ele logo na semana me procurou e disse ‘padre, o senhor está querendo fazer um trabalho com esses dependentes químicos?’, e eu disse que sim. Ele me perguntou por que eu não fazia e eu disse: Léo, precisamos de um local para isso. E aí, na quarta-feira mesmo ele me indicou esse lugar, a Chácara Emaús. E aí nós começamos”.
Com o apoio da comunidade da paróquia e de empresários, foi possível construir a infraestrutura necessária, adquirindo recursos com vários eventos e doações.
“Eu diria, assim, que o trabalho da Chácara Emaús começou por um sentimento de compaixão. Quando ele existe é impossível que ele não faça nascer uma ação dentro da pessoa, isso nós vemos com o exemplo de Jesus Cristo. Aliás, a Sagrada Escritura sempre atribui esse sentimento de compaixão a Deus, com uma única exceção, quando por ocasião do bom samaritano que sentiu compaixão por aquele que o havia assaltado”, pondera o padre Mário.
Vivendo em Marabá há 19 anos, padre Mário expressa seu amor pela cidade e seu compromisso em continuar seu trabalho na Chácara Emaús.
“Me recordo, eu saía aqui da Cidade Nova para a Nova Marabá, um dois, três carros pela Transamazônica trafegando. Eu posso dizer que houve de fato um progresso de uma forma irreversível nessa cidade. O meu projeto de vida é permanecer aqui o resto de dias, que Deus na sua bondade, me conceder. Eu diria que a minha mensagem a cada cidadão de Marabá é que estivéssemos comprometidos para construirmos uma Marabá sempre mais justa economicamente, socialmente equitativa, culturalmente pluralista, politicamente verdadeiramente democrática, religiosa e economicamente humana e solidária”, finaliza.
Texto: Fabiane Barbosa
Fotos: Sara Lopes
The post Histórias de compaixão: Trabalhos sociais voluntários que transformaram muitas vidas marabaenses appeared first on Prefeitura de Marabá - Pa .
Mín. 23° Máx. 29°